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Data publicação: 02/07/18 | Fonte: Jornal do Commercio | Especial

Vidas compartilhadas

Na madrugada do dia 22 de junho de 2006, o telefone tocou. “É da casa de Emanuel Moraes Batista?”. Sem delongas, responde um senhor que havia acabado de acordar para atender a ligação: “Não, tem nenhum Emanuel aqui.” E colocou o aparelho no gancho. Quem estava do outro lado insistiu e ligou mais uma vez. Fez a mesma pergunta. A resposta foi novamente negativa. Mas, dessa vez, a esposa desse senhor ouviu o diálogo e disse com voz enfática. “Emanuel é o nosso neto; não desligue”. O senhor estava com tanto nosso que demorou a perceber que se tratava do mais precioso telefonema. A conversa prosseguiu. Quem ligava era um profissional de uma equipe de transplantes para informar que havia um doador para Emanuel – o bebê que tinha apenas 6 meses de vida. O pequeno aguardava um fígado, e aquele telefonema jamais poderia ser perdido. Era a oportunidade de ouro para o renascimento da criança, que estava na fila do transplante há três meses, com saúde debilitada por causa da atresia de vias biliares, doença que provoca perda da função hepática. A única chance de cura é o transplante.

Antes de ligar para a casa dos avós de Emanuel, a equipe já tinha entrado em contato com a família de outra criança que era prioridade na fila. Mas ela estava doente, o que impedia de enfrentar uma cirurgia de grande porte. Com isso, Emanuel passou a ser o primeiro da lista de espera por um fígado, devido à condição frágil de saúde em que se encontrava. “Venham logo para o hospital porque é o dia do transplante dele”, informou, pelo telefone, o profissional da equipe que atuava na captação de órgão. Àquela altura, o grupo do médico Cláudio Lacerda, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no bairro de Santo Amaro, área central do Recife, já estava à espera do bebê para a cirurgia que representaria uma nova vida.

Mal terminou a ligação, os avós de Emanuel não pensaram duas vezes para seguir imediatamente à residência dos pais do menino. O tempo era curto, e a família tinha que chegar, em horas, ao Huoc. “Lembro que pai veio numa correria danada. Pediu para eu arrumar logo Emanuel. Em instantes, saímos de casa. Meu filho permaneceu dormindo. O céu estava clareando quando pisamos no hospital, e a enfermeira logo pediu para eu não amamentá-lo, pois o jejum de 12 horas era necessário para a cirurgia”, recorda a mãe de Emanuel, a comerciante Jeane Patrícia de Moraes, 42 anos. Tudo parecia ocorrer de forma tão sincronizada que, justamente naquela madrugada, ele não acordou para mamar. “Ele choramingou um pouco, mas a gente acalentou e conseguiu segurar a fome. Isso deu uma fé tamanha. Ao meio-dia, ele entrou no bloco cirúrgico”, relembra o pai de Emanuel, o contador Antônio Henrique Batista, 39.

Ao relembrar aquele dia, ele diz com voz trêmula: “Foi um milagre. A gente esperava muito por isso”. Cinco horas após o início da cirurgia e com corações cheinhos de esperança, a família do menino recebe a notícia de que o procedimento foi um sucesso. A expectativa da equipe responsável pelo transplante também era gigantesca. O motivo? Os profissionais nunca tinham realizado a cirurgia em um bebê tão pequenino. Então aquela ocasião se tornou ainda mais simbólica: Emanuel se tornou a mais nova e mais leve (pouco mais de cinco quilos) criança a passar por um transplante de fígado no Brasil. “Ele entrou, no bloco cirúrgico com os olhos bem amarelinhos, a pele meio esverdeada e a barriga volumosa. Logo após o procedimento, vimos a rápida mudança. Ele estava bem branquinho. Com a barriguinha costurada, ele já saiu da sala com o abdome menos saliente e olhos mais vivos. A sensação que tivemos foi nosso filho ter nascido mais uma vez” conta Antônio.

A vitalidade contemplada em Emanuel, pelos médicos e pela família, logo após a cirurgia, despontou da solidariedade – um sentimento que Emanuel, hoje aos 12 anos, conhece bem. “Meu pai gosta de falar da minha história porque acredita que ela pode conscientizar as pessoas sobre a importância da doação de órgãos. Foi esse ato que me salvou. Esse fígado que hoje tenho veio de uma criança que foi atropelada quando tinha 2 anos de idade e, após a morte dela, a mãe doou os órgãos”, diz Emanuel, que tem uma infância cheia de vida. “Brinco, estudo e faço natação.” Os cuidados com a alimentação e a necessidade de tomar medicamentos existem, mas foram normalmente incorporados à rotina.

Ao compartilharem a história de Emanuel, os pais não deixam dúvidas sobre o sentimento que carregam. “A gente transborda de tanta felicidade”, relata Antônio, cujo o depoimentos é complementado pela esposa. “A gente não conhece a mãe que autorizou a doação do fígado do filho que ela perdeu, mas somos imensamente agradecidos. Mesmo diante de tanta dor, ela foi capaz de ser solidária.” Ao passearem por tantas lembranças e episódios de superação, os pais de Emanuel se consideram premiados. Não sabem eles que toda essa história, cheia de emoção, só premia quem a escuta. São pessoas como eles que nos contagiam de fé quando ousamos não acreditar no impossível. “O fígado é um órgão vital, sem o qual não é possível sobrevivência. Ele tem mais de 200 funções. Por isso, quem tem doenças hepáticas degenerativas fica muito debilitado, e o transplante geralmente é a única maneira de tratar efetivamente essas pessoas, permitindo a recuperação plena da saúde. Ao melhorarem, os pacientes visitam o nosso serviço para abraçar a secretária, os médicos, as enfermeiras... Quando alguém enfrenta os problemas que eles vivenciaram passa a valorizar bem mais a vida. E as crianças, ao ganharem um fígado novo, renascem completamente. Os adultos também, mas as crianças transplantadas... Ah, como elas ficam felizes”, diz o cirurgião Cláudio Lacerda

“O pós-transplante é fascinante”

O dia 16 de agosto de 1999 é daqueles que o médico Cláudio Lacerda, chefe do Programa de Transplante Hepático de Pernambuco, armazena com todos os detalhes na memória. Uma telefonista de 44 anos, com cirrose biliar primária, aceitou a proposta de ser a primeira paciente a renascer pelas mãos da equipe de serviço que, assim como ela, ganhava vida. Ela recebeu um fígado saudável no Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no bairro de Santo Amaro, área central do Recife. “Antes de começar, falei com Deus. Pedi a Ele para, caso achasse que eu estava fazendo a coisa certa, dar-me força interior e sorte. Quando comecei a incisão na pele de Conceição, o nervosismo deu luar a um bem estar indescritível”, escreve o cirurgião, no livro Acorde o governador, que conta trajetória de superação 16 anos após a cirurgia naquele agosto de 1999.

Hoje, passadas quase duas décadas do pontapé inicial para a criação do serviço de transplante hepático em hospital público de ensino, Cláudio Lacerda coleciona um universo de histórias emocionantes, tanto pelas tristezas quanto pelas alegrias que são capazes de nos ensinar a limpar os olhos para perceber o encantamento de crianças, adolescentes, adultos jovens e idosos pela vida, que deixam para trás as angústias e o sofrimento físico antes do transplante. Na ponta do lápis, a conta do volume de pacientes que receberam um novo fígado, pelo Programa de Transplante Hepático de Pernambuco, chega a 1.250 pessoas. “É um serviço que atua em três hospitais: o Huoc, o Jayme da Fonte (Zona Norte do Recife) e o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (área centro da cidade). Todos são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS)”, informa Cláudio Lacerda.

Complexo, o transplante de fígado é quase sempre a única maneira de tratar (e salvar) quem vive de doenças degenerativas do órgão. É a segunda maior fila de espera atualmente em Pernambuco, com 133 pacientes, atrás apenas de 779 pessoas que aguardam um rim. “O transplante hepático é um procedimento altamente desafiador. A gente lida com quadros muito graves. Mas, quando passa o pós-operatório, a maioria dos pacientes tem saúde plena. Isso é fascinante. É gratificante vê-los retomar a capacidade intelectual e física”, frisa o cirurgião, que descreve o hiato entre os primeiros transplantes e as cirurgias atuais. “Tudo era encarado com altíssimo grau de dificuldade. Aos poucos, os procedimentos foram dominados e agora o processo acontece com tranquilidade. Somos um dos maiores centros transplantadores de fígado no mundo, com 120 cirurgias por ano.”

O médico também se orgulha dos avanços da Associação Pernambucana de Apoio aos Doentes de Fígado (Apaf), fundada por ele. “Essa instituição é fundamental porque a maioria dos pacientes é pobre, e de nada adianta cuidar do fígado das pessoas sem cuidar delas.” A Apaf, que funciona no Hospital Oswaldo Cruz, atende mensalmente, em sua Casa de Acolhimento, cerca de 100 pacientes e seus acompanhantes. “Os pacientes recebem todo apoio e hospedagem enquanto o diagnóstico é concluído. E permanecem recebendo suporte durante a permanência no Recife para o tratamento. É um trabalho muito bonito”, acrescenta Cláudio Lacerda, sem ter dúvidas de que é possível fazer medicina de ponta, em hospital público, e cuidar de gente com dignidade, carinho e respeito.